quinta-feira, 2 de junho de 2016

Mês de Santo Antonio

Querida Danuza,

Chegamos em Junho, mês de Santo Antonio, o santo casamenteiro! E claro que é o mês de novenas para o Santo mais querido dos solteiros. Então você pode imaginar a quantidade de convites que já recebi para rezar as trezenas do santo. Já aceitei meia dúzia de convites e espero poder ir a todos porque a reza é apenas uma parte da festa, o bom mesmo é o reencontro com amigas há muito não vistas e as comidas que adoro. É uma conversa animada pelas comidas e bebidas típicas da época e é muito bom.
Começa com o amendoim cozido, que se come sem perceber a quantidade e se estiver salgado, passar a noite bebendo água. Sempre tem canjica e milho verde cozido, que também é uma delícia. Pamonha não gosto, então passo batido, mas gosto de bolinhas de jenipapo e também do licor. E as músicas de forró? Cada uma melhor que a outra, tirando as letras que são provocação pura! É um mês alegre, barulhento e caloroso, mês da colheita, da fartura, da comemoração da vida e sua renovação.
E aí entra Santo Antônio ajudando a formar os casais e nesse mês todos que estão sozinhos tem que aproveitar a força do santo para se ajeitar.
Meu filho mais velho nasceu no dia do santo, então somos quase parentes!!!
E depois tem São João, São Pedro, muito santo para um mês só. Por isso é um mês poderoso!
Vou te contar a história de Santo Antonio e sua fama de casamenteiro.(pesquisa em sites)
"Batizado de Fernando Bulhões, Santo Antônio era um frade franciscano, nascido em 1195, em Portugal, mas viveu durante a maior parte de sua vida em Pádua, na Itália. Apesar de não ter em seus sermões nada específico sobre casamentos, Santo Antônio ficou conhecido como o santo que ajuda mulheres a encontrarem um marido por conta da ajuda que dava a moças humildes para conseguirem um dote e um enxoval para o casamento.
Reza a lenda que, certa vez, em Nápoles, havia uma moça cuja família não podia pagar seu dote para se casar. Desesperada, a jovem – ajoelhada aos pés da imagem de Santo Antônio – pediu com fé a ajuda do Santo que, milagrosamente, lhe entregou um bilhete e disse para procurar um determinado comerciante. O bilhete dizia que o comerciante desse à moça moedas de prata equivalentes ao peso do papel. Obviamente, o homem não se importou, achando que o peso daquele bilhete era insignificante. Mas, para sua surpresa, foram necessários 400 escudos da prata para que a balança atingisse o equilíbrio. Nesse momento, o comerciante se lembrou que outrora havia prometido 400 escudos de prata ao Santo, e nunca havia cumprido a promessa. Santo Antônio haviera fazer a cobrança daquele modo maravilhoso. A jovem moça pôde, assim, casar-se de acordo com o costume da época e, a partir daí, Santo Antônio recebeu – entre outras atribuições – a de “O Santo Casamenteiro”.
Outra história que envolve a fama de Santo Antônio é a de que uma moça muito bonita, que havia perdido as esperanças de arranjar um marido, apegou-se a Santo Antônio. Dizem que a mulher adquiriu uma imagem do santo e colocou-a em um pequeno oratório. Todos os dias, a jovem colhia flores e as oferecia a Santo Antônio sempre pedindo que este lhe trouxesse um marido. Mas, passaram-se semanas, meses, anos… e nada do noivo aparecer.
Então, tomada pelo desgosto e pela ingratidão do santo, ela atira a imagem pela janela. Neste exato momento, passava um jovem cavalheiro que é atingido pela imagem do Santo. Ele apanha a imagem e vai entregar à jovem, que se apaixona por ele e atribui a sua chegada a fé por Santo Antônio.
A partir daí, as moças solteiras que querem casar começaram a fazer orações pedindo ajuda ao santo e cultuando sua imagem. Entre as simpatias mais populares, acredita-se que as jovens devem comprar uma pequena imagem do Santo e tirar o Menino Jesus do colo, dizendo que só o devolverá quando conseguir encontrar o amor, ou ainda, virar o Santo Antônio de cabeça para baixo.  

Então aproveite o mês e reze para Santo Antonio trazer seu amor. Com fé!!!!


Flores na mesa

Querida Danuza,

Amanhã teremos um almoço em casa e vim no carro listando mentalmente todos os detalhes: cardápio escolhido, ingredientes comprados, convidados confirmados, bebidas no gelo, toalha de mesa e guardanapos, copos, louça e de repente me lembrei das flores nas mesa. Imediatamente veio a imagem de minha amiga Vevé, que arruma as mesas de almoço em sua casa de forma primorosa, sempre com flores. Ri sozinha pensando que flores na mesa é a marca registrada dela, e pensei no trabalho que dá providenciar esse detalhe. Quanto vale uma mesa de almoço enfeitada com flores?
Quanto vale esse detalhe que nem sempre é valorizado pelos convidados? E no meu dia-a dia quantos detalhes são pensados especialmente para agradar aqui e ali e não são nem percebidos?
Já li em algum lugar que a vida é enfeitada pelos detalhes, acredito que seja.
Lembrei agora de uma música de Roberto Carlos que fala desses detalhes de nós dois, são coisas muito grandes para esquecer...
Minha mãe costumava deixar toda a roupa de meu pai pronta em cima da cama para ele vestir ao sair do banho para ir trabalhar. A calça do paletó, com os botões abertos, a cueca, as meias e a camisa de manga comprida com os botões abertos, as abotoaduras, sapatos, e o paletó também aberto. Eu achava aquilo incrível, e mais ainda quando ele a chamava para abrir um botão que tinha ficado esquecido de abrir. Detalhes de uma relação de cuidados especiais, devia ter um significado para eles.
Lembrei agora de minha amiga Cynthia contando todos os detalhes dos preparativos para o casamento de sua filha. Começava com o Save the Date 6 meses antes e percorria convites para chá de cozinha, cartões de agradecimentos de presentes, convite de casamento, novos cartões de agradecimento de presentes, lembranças, buffet, igreja, coral, flores, decoração da festa, música, show, vestidos para várias ocasiões, enfim nem sei mais relatar tantos detalhes que foram. Acho que casamento é o ápice de conjunto de detalhes de um evento.
E volto ao meu almoço de amanhã que vai ser sem flores na mesa. Mas vou caprichar na comida e na sobremesa e vou deixar aqui o registro de que sou boa nos detalhes, mas um dia ainda vou ser ótima!


quarta-feira, 27 de abril de 2016

O poder do bom-humor

Querida Danuza,

Vou te contar um dos grandes segredos do Universo: ter bom-humor é fundamental para viver bem!

Só para você ter uma idéia de como acho bom-humor importante, sempre digo a meus filhos, quando estamos conversando sobre algum assunto que traga o tema da morte, que no meu enterro quero que tenha discurso. Isso mesmo que você ouviu, discurso!!!! Enterro sem discurso não tem graça nenhuma; é preciso que se fale das qualidades do morto, alguma característica engraçada, um fato comovente, uma história que traga o espírito do morto para a cerimônia.

E no discurso do meu enterro faço questão que digam que "minha mãe era bem-humorada, macia e cheirosa!". Veja por aí o quando ser bem-humorado vale para mim!

Não consigo mais conviver com pessoas que não tenham senso de humor, que não entendam uma piada sutil ou um comentário irônico. Estou valorizando comentários menos óbvios...

A graça da vida está em não levar muito a sério as diferenças e ser paciente com as contrariedades.

Quando meu segundo filho nasceu, veio para tomar conta dele uma enfermeira, que ficou comigo 10 anos. O nome dela é Dalva, e credito a ela uma parte da formação da personalidade dele: seguro, self-confident, fácil de fazer e manter amizades e muito bem humorado. Ele não se deixa aborrecer por pouco e quando isso acontece logo faz as pazes, não acalenta mágoas.

Ela sempre teve paciência para me escutar e conversar em muitos momentos ao longo de todos esses anos. Os problemas pessoais ela sempre enfrentou com bom-humor, olhando com esperança e buscando sempre final feliz!

Claro que já convivi com muitas pessoas mal-humoradas, e as conheço tão bem que acredito que dentro de mim soa uma sirene quando encontro uma.

Tudo fica difícil com pessoas mal-humoradas e parece que essas pessoas atraem aborrecimentos que geram mais mal-humor.

Agora que já lhe contei um dos segredos mais importantes do Universo, desejo que você diariamente encontre uma pessoa bem-humorada, que lhe faça bem só por ser assim.






Errar 1, 2 ou 3x?

Querida Danuza,

Já errei tanto na minha vida amorosa, que decidi que não vou mais errar. Por que tenho tanta certeza disso? Elementar minha cara, basta não repetir os mesmos erros, e não pense que é fácil não.
Um dos erros mais clássicos é achar que o homem pelo qual nos apaixonamos é perfeito e merece todo  o nosso entendimento, atenção , compreensão, perdão e de quebra acharmos engraçado tudo o que ele diz.
Confere?
Pois é, mas agora é que entra em cena a experiência para ler os sinais emitidos logo no início, nos primeiros encontros. Precisa ter estômago forte e ouvidos abertos.
No primeiro encontro ele está disposto a aceitar todas nossas exigências; está gordo? vai emagrecer, está bebendo muito?, vai parar imediatamente, está sem trabalho? já vai começar a procurar emprego no dia seguinte? está sedentário, trabalhando muito? vai diminuir o ritmo no dia seguinte e entrar em uma academia, tem uma namorada com uma relação já desgastada? vai terminar amanhã sem falta.
Com certeza faltaram mil outros casos mas os que relatei acima já são suficientes para ilustrar meu blog de hoje.
Acredite em qualquer uma dessas promessa de primeiro encontro e será uma mulher em busca de terapia no 10o. encontro. Razões? Nenhuma dessas promessas vai vingar apesar de todo o charme do indivíduo e de sua performance maravilhosa na cama.
E cama prende, você sabe, ainda mais se for aquela com a qual você sonhava há muito tempo.
Não estou aqui para dar conselhos, você sabe muito bem disso.
Estou aqui dizendo que você pode errar quantas vezes quiser sobre o mesmo assunto acreditando que dessa vez será diferente. Tenho  certeza que sim, será muito pior que da primeira vez, porque você terá certeza que sabia que já tinha visto esse filme antes com final e tudo o mais e quis assistir de novo.
No último mês iniciei uma história que eu já tinha vivido antes e onde me dei muito mal. Não resisti ao canto da sereia e lá fui eu novamente para um primeiro encontro onde eu já conhecia o roteiro, mas fui para dar uma chance ao destino, coisa de mulher, você sabe.
E fui no segundo e no terceiro. Aí aconteceu uma coisa interessante, apareceu para mim o sinal vermelho, alerta total! Resolvi ser corajosa e obedeci o sinal vermelho.
Foi difícil, muito difícil, mas consegui pular para fora da panela quando vi a água esquentando e eu ali, me deixando ficar naquela situação.
Posso até ter perdido bons momentos, mas o preço era muito alto, e no meu compromisso de não cometer de novo o mesmo erro eu tirei nota 10. Espero que continue pensando assim pelos próximos dias para não pular de volta nessa panela, optando em sofrer um pouquinho agora em vez de muitão lá na frente.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

E se?

Querida Danuza,

Algumas vezes temos a oportunidade de avaliar o que teria acontecido se tivéssemos feito outra escolha em alguns momentos decisivos de nossa vida. É muito interessante, emocionante até, olharmos o que aconteceu com aquela pessoa que naquele momento lá atrás foi tão importante e fez parte de nossa vida.
Outro dia minha irmã me  perguntou se tudo que escrevo aconteceu comigo e eu achei a pergunta engraçada e pertinente e respondi que esse blog não é uma biografia, é uma reflexão do que vejo, escuto, analiso e tiro minhas conclusões. Aqui conto histórias de pessoas que conheci pessoalmente os através de histórias contadas por amigos. Também fazem parte dessas histórias os livros que li e filmes que me marcaram de alguma forma e até de novelas que assisti.
Acabei de lembrar que usava muito uma frase com meus filhos quando queriam ir para lugares que eu não achava seguro, ou programas que eu não achava adequados para a idades deles. Essa coisa de querer ir para festas, dirigir carro, ir para a casa de amigos sei lá aonde com sei lá quem... Eu dizia assim: Vocês são meus filhos e cuido de vocês para que nada de mal lhes aconteça, mas quando vocês tiverem seus filhos vocês "podem jogar seus filhos no vento", não vou dizer nada, mas ou meus eu tomo conta !!!! Eles ficavam aborrecidíssimos mas não tinha jeito, essa frase era mágica para encerrar essas discussões e eu ouvi em uma novela que se passava no Marrocos.
Mas vou voltar ao assunto que me trouxe a esse texto, e se?
As redes sociais permitem que olhemos para aquele namorado lá da escola secundária e que não foi levado a sério porque era muito avoado e não gostava de estudar e por isso o namoro não foi em frente e o encontramos como diretor de sucesso de uma companhia de seguros, com uma família linda, 5 filhos, 10 netos...
E aquele outro, da faculdade, que foi uma paixão avassaladora, agora mora em uma fazenda no interior e planta verduras sem agrotóxicos, totalmente zen...
E o que quase foi um casamento, agora morando fora, com uma esposa bem gorda, um filho já adulto e várias declarações de amor no FB, ninguém merece!!!!!
Pois é Danuza, e se tivéssemos feito outras escolhas, se tivéssemos casado com um daqueles onde estaríamos agora? Como teria sido a nossa vida? Que filhos teríamos tido? Que emoções teríamos vivido? Que amor teríamos tido? Mas não foi assim e terminamos as relações sem qualquer dó fazendo as escolhas que julgávamos ser as melhores para nós, vivendo a nossa juventude sem preocupações de fazer sofrer o parceiro, apenas buscando o que nos parecia o melhor.
Outro dia passei um susto! Lembrei de um rapaz de quem destrocei o coração há anos atrás e o encontrei no FB. Fiquei feliz quando descobri que ele tinha sobrevivido a mim!!! Construiu uma família linda e parece muito feliz! Fiquei olhando as fotos e os comentários, como se estivesse vendo um filme, fiquei ali por um tempo bisbilhotando a vida dele, avaliando o quanto ele tinha mudado... e todas essas perguntas vieram na minha cabeça.
Acho que nós devemos olhar as histórias por esse ponto de vista também porque sempre nos vemos como as sobreviventes corajosas e vitoriosas de um romance desastrado, mas olhando o FB vale um mea-culpa e um pedido de desculpas mudo e um respiro de alívio por todos aqueles que foram fortes e sobreviveram aos nossos caprichos e términos onde colocamos um ponto final onde poderia ter sido uma vírgula ou um ponto de continuação.
E se?

Preciso falar com você!

Querida Danuza,

- Preciso falar com você!
Gelei só de ouvir essa frase! Já podia imaginar o que viria e o estômago embrulhou. Sempre odiei essa chamada, porque de alguma forma me leva a um momento lá atrás, trazendo uma sensação antecipada de que algo de ruim está prestes a acontecer.
Claro que depende do tom da chamada, mas esse era o tom certo daquela chamada para dar uma má notícia.
Lembro da primeira vez em que ouvi essa frase, Eu estava muito apaixonada e meu coração gelou quando ele me ligou e disse isso e eu fiquei com aquela frase martelando na minha cabeça, sem entender direito, tal era o meu medo de ouvir ele falar que não queria mais para continuar. E eu ali, tão feliz, tão cheia de planos e boas intenções. E agora o que dizer? Fiquei muda e incapaz de raciocinar, sabendo que não havia lógica no seu discurso, mas eu era incapaz de raciocinar, tal o medo que tomou conta de mim.
Apaixonados se tornam burros, isso eu sei com certeza. Deve acontecer um congelamento de sinapses de neurônios, mas o fato é que a paixão aceita coisas inaceitáveis e entende coisas sem nenhum nexo.
E agora você me liga e me diz que quer falar comigo e não diz do que se trata, sabendo claro que isso me deixará ansiosa até a hora do juízo final, que é como eu já me vejo, criando mil motivos para continuar com você.
Penso em ligar e perguntar o que você quer falar comigo, mas não tenho coragem.
Penso em me arrumar, vestir um vestido bem sexy, cabelo perfumado, batom vermelho, para que você se esqueça do que quer falar ao me ver. Faço isso mas nem assim me acalmo. Os minutos não passam. O estômago dói, deve ser fome, mas não consigo comer nada.
Fico aqui pensando em quanto gosto de ficar com você, de dar as mãos, de dançar, de conversar, de sua risada, e fico gelada só de pensar em te perder.
O amor é estranho, dá felicidade e ao mesmo tempo dá medo de perder.
Aguardo você chegar e me preparo para a tal conversa, já sofrendo pro antecipação. Tenho pressentimento que a conversa não vai ser boa.
A ansiedade faz com que eu ande pela casa toda e minha mãe já me perguntou duas vezes o que eu tenho. Se eu falar vai ser pior, vou começar a chorar por antecipação, então digo que não é nada.
Ela desconfia que tem alguma a coisa a ver com você, mas não diz nada, só me olha, enquanto finge que assiste a novela. Meu pai acaba de chegar e também me pergunta se está tudo bem, deve estar estranhando me ver com esse vestido em plena quarta-feira. Me deu até vontade de rir agora, devo estar ridícula com esse vestido de festa dentro de casa, andando de um lado para o outro, indo até a janela de dois em dois minutos.
Volto para o quarto e troco de roupa, coloco uma calça comprida e uma blusinha de malha, fica melhor assim.
O telefone toca e eu pulo da cadeira. É você me pedindo para descer. Mau sinal, não vai subir.
Desço como quem vai a seu próprio velório, já acendendo vela e puxando o terço.
Olho para você e sua carinha linda e penso de novo como vou suportar essa conversa.
Você é rápido e sincero, não dá mais por isso e isso, a culpa, claro, é toda minha e de repente meu coração se acalma, ok, digo eu, nada a declarar ante tantos defeitos e faltas.
Acabou. Sinto um vazio enorme, maior do que eu.
Subo o elevador e entro em casa. Meus pais me olham e minha mãe se levanta e me abraça. Vai passar, ela diz, logo vem outro.
Eu não quero outro, quero ele, eu digo já com a voz embargada e as lágrimas descendo. Meu travesseiro foi meu companheiro fiel e amanheceu todo amarrotado, testemunha das minhas lágrimas.
Lembrando disso alguns anos depois, penso em como eu sofri, e em como foi difícil esquecer dele,
Passou, mas deixou uma marca, e depois desse dia sempre estremeço quando alguém me diz - Preciso falar com você.
Acabo de receber uma mensagem sua, pedindo para descer. Rio comigo mesma e respiro fundo. Onde andará aquele garoto, aquele que partiu meu coração? Não sei, não faço a menor ideia.
Ora bolas, pensando melhor você não será capaz de partir meu coração, talvez um arranhão, mas nada que um chá de frutas silvestres bem quente não resolva.


Pedra de Paciência

Querida Danuza,

Ensaiei diversas vezes voltar a lhe escrever mas não consegui nem abrir o blog. Muita coisa aconteceu nesse tempo, e aqui estou eu novamente, fazendo de você minha Pedra de Paciência.
Assisti a esse filme duas vezes esses últimos meses e em ambas fiquei impactada pela história da afegã, pela força dos costumes  e da cultura, e pela falta de perspectivas.
O que eu faria se estivesse no lugar dela? Teria cuidado do marido em coma correndo todo aquele perigo por um marido que nunca a tinha olhado, nunca tinha conversado com ela, ou beijado? E como os sentimentos podem surgir naquela cultura machista onde as mulheres não tem nenhum valor? Sei que você vai me achar ridícula nas minhas conclusões mas imagino que assim como o amor e a solidariedade conseguem nascer naquele ambiente improvável, assim surgiu a vida nos primeiros seres unicelulares, por um milagre. Pode rir, eu não ligo. E penso em como esse sentimento, o amor, pode surgir mesmo não sendo ensinado ou valorizado.
Quanto à Pedra da Paciência é uma forma de nos libertarmos das dúvidas, dos erros, dos medos, das culpas, das angústias, contando a uma pedra, todos os infortúnios, até a hora em que ela se parte por não suportar mais e assim o fazendo leva em sua explosão tudo o que lhe foi contado em segredo.
Acredito que funciona como uma terapia, falando e contando sem pudor, os segredos vão sendo libertos e perdoados e a liberdade chega junto com o perdão a si próprio. Lindo isso não? É uma forma de sobreviver sem enlouquecer.
É um filme que vale muito à pena principalmente se comparamos nossa vida à das afegãs.
Há duas semanas atrás perdi uma grande amiga, que tinha um câncer e tentou viver até o último dia se submetendo a todos os tratamentos que estavam à disposição. Para mim foi uma lição de vida e de morte. Foi a primeira vez que acompanhei de perto uma amiga nessa situação e posso lhe dizer que o sofrimento é imenso. Eu lhe fazia visitas constantes e conversávamos muito, durante horas, ela deitada na cama e eu sentada em uma cadeira de madeira, de espaldar alto, encostada na beira da cama. Ela me contava as histórias de sua infância, adolescência, família, amores, marido, filho, viagens, amigos e hoje eu penso que éramos Pedras de Paciência uma da outra, contando nossos segredos e fazendo nossos comentários nem sempre politicamente corretos. Sinto muita falta dela e de nossas conversas. Ela me deixou um presente, na forma de uma promessa, de acompanhar o crescimento e formação de seu filho único. Toda vez que ela me fazia prometer que cuidaria de seu filho eu dizia que ela tinha achado pouco eu criar dois meninos sozinha e ela ainda queria que eu cuidasse do dela. Ela repetia, você prometeu! Prometi e vou cuidar, acompanhar e ajudar a formá-lo um homem equilibrado e preparado para a vida.
A vida não é justa, eu sei. Ela queria viver, sair daquela cama, viajar, e todo dia ela tinha essa esperança.
Cabe a mim agora não esquecer nunca que a vida com saúde é um presente divino e deve ser reverenciada todos os minutos.
Eu sei que essa tristeza vai passar e sei também que vou cumprir minha promessa feita à ela. Só não sei se algum dia encontrarei outra Pedra de Paciência tão amiga e boa como ela.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Save the date

Querida Danuza,

Estamos na era do "Save the date" para todo o tipo de evento... casamento, batizado, aniversário, bodas de ouro, de prata, de diamante, e agora recebi um de nascimento!!!
Nunca tinha recebido um convite para visitar um bebê que nasceria dali a 15 dias! Fiquei pasma, surpresa, confusa, perdida, não sabia o que pensar.
Recebi pelo Whatsapp o convite para fazer a visita no hospital, na data tal, e fiquei pensando em como tudo mudou e eu não percebi. E se acontecer alguma coisa imprevista? Se tiver algum problema, como fica?
Essa exposição de vida me deixa apavorada, pensando em como hoje tudo é para ser fotografado, filmado e mostrado para xmil pessoas, que devem ser testemunhas de tanta felicidade. Hoje o lema é: Não basta ser feliz, é preciso mostrar ao mundo que se é feliz!
Estendendo a forma de divulgação de tudo o que acontece na vida para todos os seus amigos do FB, Instagran, Twitter etc, estou pensando que logo, logo receberemos o "Save the date" para velórios e funerais!!!! Imagine a cena, você recebendo uma mensagem bem bonitinha, formatada, com o laço negro, avisando que dia x às y horas será o velório de Fulano de Tal, que já se encontra na UTI e terá os aparelhos desligados. Surreal!!!! Concordo, mas não impossível!
No momento atual tudo é possível, e de tão repetido passa a ser normal.
Acredito que as separações também serão divulgadas, avisando que a partir de agora os cônjuges estão livres para experimentar novos parceiros. Serão divulgadas fotos antigas com um X em cima, tornando bastante claro que aquele par já era e que está partindo para outra situação.
E aí, nós devemos curtir? Comentar que já imaginava que isso fosse acontecer porque ele/ela já tinha outro/outra? Ou que estamos sentidos com essa separação e esperamos que o casal volte?
Estou confusa, preciso atualizar meu caderninho de etiqueta!!!!!!


terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Assistindo "Um trem para Lisboa"

Querida Danuza,

Espero que você já tenha assistido o filme "Um trem para Lisboa", e se ainda não assistiu, assista.
Estou aqui pensando se devo ou não te contar a história do filme, e acabo de resolver que não devo; o filme é lindo demais e não merece que eu estrague a sua surpresa.
Vou só comentar aqui uma passagem que me deixou emocionada e pensativa.
O protagonista do filme, que é um professor solitário, se encontra parado na estação esperando o trem para voltar para a sua cidade, quando a "mocinha" que tinha se apaixonado por ele pergunta:
- Por que você não fica?
E ele fica parado olhando para ela, entendendo que aquela resposta poderia mudar a vida dele... e ela arriscando mudar sua vida também, talvez viver um grande amor.
Penso na coragem de se fazer determinadas perguntas, quando se sabe que a resposta pode dar um novo rumo à vida, pode trazer um sofrimento, pode corrigir erros de um relacionamento, ou pode encerrar um.
Você já pensou nisso? Quantas vezes a pergunta fica presa sem que tenhamos a coragem de falar só por medo de ouvir a resposta do outro?
Voltando ao filme, por que ele não perguntou a ela se desejava que ele ficasse? Imagino que ele não sabia como dizer isso porque de antemão achava que era muito chato (segundo sua ex-mulher) e aceitava isso como verdade absoluta, não deixando espaço para outra chance.
Quantas mães ficam caladas com medo de perguntar aos filhos se estão usando drogas ou de perguntar se estão se protegendo em suas relações com sexo, só por medo de ouvir a resposta.
Quantas perguntas ficam caladas quando um dos parceiros desconfia de traição mas prefere não perguntar para não dar vez à uma resposta?
Nossos medos às vezes são maiores que nós e nos prendem até que consigamos fazer as perguntas que vão nos libertar.
Lembrei agora de um caso muito bobo, mas bem dentro dessa questão.
Uma amiga sempre comprava iogurtes para o filho e em poucos dias não tinha mais nenhum na geladeira. Ela não tinha coragem de perguntar para a babá quem estava tomando os iogurtes com medo que ela se ofendesse e fosse embora. E ficava com aquela situação a aborrecendo semana após semana. Até que um dia, por algum motivo acumulado mandou a babá embora. Logo descobriu que quem tomava os iogurtes do garotinho era a cozinheira!!!!!
Não era melhor ter tido a coragem de perguntar?