quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A vontade é "sem noção"

Querida Danuza,

Pois é, a vontade não tem percepção se um desejo é possível ou não. Simplesmente procura meios para conseguir realizar e às vezes perde a noção.
Pensei nisso quando minha mãe, aos 95 anos e com dificuldade de andar, decidiu renovar seu passaporte para ficar pronta para as próximas viagens.
Ela viajou muito nos últimos 30 anos, desde que meu pai faleceu. No ano passado ela teve um problema de hérnia de disco e foi operada, numa cirurgia pouco invasiva. O resultado é que a dor na perna melhorou mas ela ficou com muita dificuldade para andar e tivemos que contratar cuidadoras para acompanhá-la 24 horas.
Depois outras dores vieram e se instalaram, dores dos braços, e ainda nas pernas.
Providenciamos também aulas de hidroterapia para que ela mantenha a possibilidade de andar, mas tudo isso como paliativo, essa dores são irreversíveis por conta da idade.
Estava eu sentada na sala quando ela me avisou que já tinha solicitado à sua agencia de viagens que providenciasse a renovação de seu passaporte.
Na hora perguntei para quê ela queria renovar o passaporte se não tinha nenhuma viagem programada, ao que ela me respondeu que ia viajar assim que ficasse boa.
Por isso pensei que a vontade é sem noção.
Para ela viajar tem que levar uma cuidadora, o que ela não admite, e também deve ser uma viagem onde ela não precise subir em ônibus nem andar em aeroportos, ou seja, precisa ser uma viagem de navio, pegando o navio aqui no porto e voltando para cá. Mesmo assim dentro do navio os percursos são longos, pois geralmente os restaurantes e teatro são nas pontas, logo se anda bastante, e será necessário utilizar uma cadeira de rodas, o que ela também não admite, mas nada disso a convence que agora não é mais possível viajar e que o passaporte não é mais necessário. Simplesmente não tive coragem de retrucar e deixei ela correr com a renovação do passaporte. Hoje ela me disse que o passaporte ficará pronto para retirada no final do mês. Esperança é necessária para se viver.
Mas fiquei matutando sobre essas vontades que temos, muitas vezes impossíveis, e onde fazemos muito esforço para alcançar, causas perdidas, sem noção da possibilidade real de realizá-las.
Essa coisa de querer é poder é meio sem noção, acredite.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Esqueci de você

Querida Danuza,
Um dia pensei que a angústia seria para sempre
Que o buraco dentro da minha alma jamais fecharia e
Que a tristeza seria minha companhia.
Fiz tantas bobagens, cometi tantos desatinos!
O tempo passou e tudo passou com ele.
Agora eu esqueci...
Esqueci porque aquela pessoa foi tão importante,
Esqueci porque me apaixonei tanto!
Nunca mais quero que seja assim...
Vejo sua foto na mensagem e reconheço
O paletó das nossas comemorações
E penso que pelo tempo
Você já deveria ter comprado outro,
E acho ridículo esse meu pensamento
O sorriso é o mesmo
Que eu já achei tão lindo,
E agora olho com desdém
Não adianta mais mandar sinais de fumaça
O telefone toca, atendo, volto para o meu presente
e imediatamente lhe esqueço.





sexta-feira, 7 de julho de 2017

Aprendendo a rezar

Querida Danuza,
Não sei se já lhe contei que estudei em colégio de freiras sacramentinas e depois de padres vieirenses. Recebi nesses colégios educação religiosa e todos os cursos para os sacramentos e foi nesses ambientes que aprendi a rezar.
Os crentes falam em orar, acho que para se diferenciar dos católicos, e falam de maneira tão orgulhosa que acho que orar é mais forte que rezar. Será?
Estou lhe contando isso porque tenho pensado muito em todos esses políticos e empresários poderosos presos nas cadeias em Brasília e em Curitiba. No colégio as freiras nos pediam para rezar pelos que estavam presos, pelos que estavam nos hospitais, nas pessoas que estavam sofrendo, nas pessoas que estavam em locais de guerra...  Todos os dias rezávamos antes das aulas e sempre se pedia misericórdia para as pessoas que estavam sofrendo. Naquela época eu não conseguia perceber como minhas orações chegariam a essas pessoas e de que forma eu as ajudaria rezando. Imaginava as orações subindo para o céu e depois descendo nos locais que as freiras falavam, como se fosse uma mágica. As freiras da clausura passavam o dia todo rezando por essas pessoas, essa era a missão da vida delas. Nunca consegui entender o verdadeiro propósito dessas vidas e se de fato todas essas orações chegariam algum dia a seu destino.
Mas voltando a meus pensamentos, fico imaginando a angústia desses homens e mulheres presos em cadeias sem o menor conforto ou privacidade, longe de casa, longe de seus familiares, longe de sua vida, sujeitos a todo tipo de constrangimento, convivendo com pessoas que jamais contratariam para trabalhar em sua empresas e agora tendo de conviver com elas. Como conseguem suportar tal situação? Alguns já estão presos há mais de dois anos!
É como se tivessem se dissociado da realidade, como se estivessem atrás da tela do cinema. A nossa vida aqui e a deles lá. Tão distante da vida real.
Será que as orações das freiras os ajudam de alguma forma? Ainda não consigo perceber como acontece o milagre, mas deve haver algum porque em todos os cultos se continua rezando, orando, pelos que estão sofrendo.
O roubo que aconteceu no país foi e é muito grave pois matou muita gente, matou o futuro de muitos jovens e deixou o país na mais absoluta crise social, moral e financeira. Acho que nunca passou pela cabeça deles que a justiça um dia chegaria até eles, mas por um milagre, chegou!
Sei que a prisão é o castigo merecido para os ladrões mas espero também que as orações os ajudem a suportar a dor do cumprimento da pena.



sexta-feira, 2 de junho de 2017

Cemitério anunciando? É a crise.

Querida Danuza,
Fala-se de crise em todo lugar e a qualquer hora. A culpa das lojas fecharem, dos restaurantes encerrarem as atividades e dos apartamentos ficarem vagos é da crise, que nos deixou mais pobres e sem oportunidades.
Estava ouvindo uma rádio essa semana e ouvi uma propaganda de um cemitério local, muito bem frequentado, local de moradia final da classe alta e também da média alta.
Fiquei prestando atenção e não me lembro de ter ouvido antes uma propaganda desse cemitério, a não ser quando foi lançado.
A crise é de verdade, pensei logo. Claro que eu sei que estamos em crise mas naquele momento senti mais.Alguns pensamentos chegaram dizendo: na crise pessoas escolhem o cemitério mais barato para enterrar seus mortos e por isso o cemitério mais caro está anunciando? Promoção de enterro, parcelado em 10x no cartão de crédito? O caixão e as flores em promoção?
Naquele momento senti a crise profundamente e pensei em todo o dinheiro roubado pelos políticos, pelas empreiteiras, pelos agentes públicos e todo o mal que eles fizeram a milhões de pessoas, lhes roubando a paz, o emprego, o futuro dos filhos e algumas vezes a vida.
Pensei nas penas que o juiz Sergio Moro aplicou e naquele momento achei a delação premiada injusta por reduzir tanto as penas a serem cumpridas nas cadeias superlotadas e inseguras. O roubo é um vício e vai continuar na saída da cadeia. Já estamos vendo isso acontecer.
Vergonha ter pessoas assim comandando o país e nossos destinos.
Cada vez que a economia parece dar sinais de recuperação explode um escândalo maior e mais roubo é divulgado. País rico com pessoas pobres, muito triste.
Se todo esse dinheiro e toda essa energia tivesse sido revertida para o bem, estaríamos crescendo e criando oportunidades para a população, mas estamos no fundo do poço sem conseguir uma luz que nos guie.
Não acredito no inferno, mas acho que lá seria um bom local para mandar os ladrões cumprirem suas penas.

terça-feira, 2 de maio de 2017

LaLaLand e a vida real

Querida Danuza,

Ontem fui ao cinema para assistir LaLaLand, ganhador de alguns prêmios no Oscar. Gostei muito do filme.Saí do cinema pensando na minha vida. Pensei também na vida de algumas amigas e amigos. Pensei em quantos amores continuamos amando mesmo que não tenhamos ficado juntos para sempre, nem tenhamos tido filhos juntos e nem tenhamos testemunhado a vida um do outro; e também não envelheceremos juntos. Mas continuaremos a amar aquele amor que aconteceu entre nós.
Talvez seja esse o sucesso do filme. Talvez porque cada um de nós  guarde uma história parecida o filme tenha ganhado tantas estatuetas na festa do Oscar.
O amor deixa uma tatuagem de fogo na nossa alma, e de vez em quando, quando pensamos ou revemos aquela pessoa que já foi tão amada, a tatuagem queima, só para lembrar que aquele amor será pra sempre.
Lindo, não é mesmo?
Conversei com alguns amigos e perguntei se tinham gostado do filme. Vários detestaram, alguns até saíram no meio do filme. Eu fiquei até o fim, apesar de meu marido insinuar várias vezes querer se levantar, mas eu queria confirmar o final que eu já sabia. Eles iam se separar apesar de se amarem. Iam correr atrás dos sonhos, apesar disso significar a separação. Mas sempre que se encontrassem saberiam que se amavam, sem que nenhuma palavra fosse dita.
Isso aconteceu com você? Tenho certeza que sim.
A vida tem dessa coisas. Tem lá um dia em que você reencontra um amor antigo e muitas recordações voltam à mente. Esse dia passa e tudo volta ao normal, a gaveta daquele sentimento se fecha novamente.
Contei o final do filme e peço desculpas se você ainda não assistiu, mas a história vale a pena. É uma história de sonhos que precisam se realizar mesmo que custe caro, mesmo que exista uma renúncia a se sofrer.
Tem umas partes monótonas, muita cantoria, mas se eu fosse você iria assistir. Depois me conte o que você achou do filme.