quarta-feira, 27 de abril de 2016

O poder do bom-humor

Querida Danuza,

Vou te contar um dos grandes segredos do Universo: ter bom-humor é fundamental para viver bem!

Só para você ter uma idéia de como acho bom-humor importante, sempre digo a meus filhos, quando estamos conversando sobre algum assunto que traga o tema da morte, que no meu enterro quero que tenha discurso. Isso mesmo que você ouviu, discurso!!!! Enterro sem discurso não tem graça nenhuma; é preciso que se fale das qualidades do morto, alguma característica engraçada, um fato comovente, uma história que traga o espírito do morto para a cerimônia.

E no discurso do meu enterro faço questão que digam que "minha mãe era bem-humorada, macia e cheirosa!". Veja por aí o quando ser bem-humorado vale para mim!

Não consigo mais conviver com pessoas que não tenham senso de humor, que não entendam uma piada sutil ou um comentário irônico. Estou valorizando comentários menos óbvios...

A graça da vida está em não levar muito a sério as diferenças e ser paciente com as contrariedades.

Quando meu segundo filho nasceu, veio para tomar conta dele uma enfermeira, que ficou comigo 10 anos. O nome dela é Dalva, e credito a ela uma parte da formação da personalidade dele: seguro, self-confident, fácil de fazer e manter amizades e muito bem humorado. Ele não se deixa aborrecer por pouco e quando isso acontece logo faz as pazes, não acalenta mágoas.

Ela sempre teve paciência para me escutar e conversar em muitos momentos ao longo de todos esses anos. Os problemas pessoais ela sempre enfrentou com bom-humor, olhando com esperança e buscando sempre final feliz!

Claro que já convivi com muitas pessoas mal-humoradas, e as conheço tão bem que acredito que dentro de mim soa uma sirene quando encontro uma.

Tudo fica difícil com pessoas mal-humoradas e parece que essas pessoas atraem aborrecimentos que geram mais mal-humor.

Agora que já lhe contei um dos segredos mais importantes do Universo, desejo que você diariamente encontre uma pessoa bem-humorada, que lhe faça bem só por ser assim.






Errar 1, 2 ou 3x?

Querida Danuza,

Já errei tanto na minha vida amorosa, que decidi que não vou mais errar. Por que tenho tanta certeza disso? Elementar minha cara, basta não repetir os mesmos erros, e não pense que é fácil não.
Um dos erros mais clássicos é achar que o homem pelo qual nos apaixonamos é perfeito e merece todo  o nosso entendimento, atenção , compreensão, perdão e de quebra acharmos engraçado tudo o que ele diz.
Confere?
Pois é, mas agora é que entra em cena a experiência para ler os sinais emitidos logo no início, nos primeiros encontros. Precisa ter estômago forte e ouvidos abertos.
No primeiro encontro ele está disposto a aceitar todas nossas exigências; está gordo? vai emagrecer, está bebendo muito?, vai parar imediatamente, está sem trabalho? já vai começar a procurar emprego no dia seguinte? está sedentário, trabalhando muito? vai diminuir o ritmo no dia seguinte e entrar em uma academia, tem uma namorada com uma relação já desgastada? vai terminar amanhã sem falta.
Com certeza faltaram mil outros casos mas os que relatei acima já são suficientes para ilustrar meu blog de hoje.
Acredite em qualquer uma dessas promessa de primeiro encontro e será uma mulher em busca de terapia no 10o. encontro. Razões? Nenhuma dessas promessas vai vingar apesar de todo o charme do indivíduo e de sua performance maravilhosa na cama.
E cama prende, você sabe, ainda mais se for aquela com a qual você sonhava há muito tempo.
Não estou aqui para dar conselhos, você sabe muito bem disso.
Estou aqui dizendo que você pode errar quantas vezes quiser sobre o mesmo assunto acreditando que dessa vez será diferente. Tenho  certeza que sim, será muito pior que da primeira vez, porque você terá certeza que sabia que já tinha visto esse filme antes com final e tudo o mais e quis assistir de novo.
No último mês iniciei uma história que eu já tinha vivido antes e onde me dei muito mal. Não resisti ao canto da sereia e lá fui eu novamente para um primeiro encontro onde eu já conhecia o roteiro, mas fui para dar uma chance ao destino, coisa de mulher, você sabe.
E fui no segundo e no terceiro. Aí aconteceu uma coisa interessante, apareceu para mim o sinal vermelho, alerta total! Resolvi ser corajosa e obedeci o sinal vermelho.
Foi difícil, muito difícil, mas consegui pular para fora da panela quando vi a água esquentando e eu ali, me deixando ficar naquela situação.
Posso até ter perdido bons momentos, mas o preço era muito alto, e no meu compromisso de não cometer de novo o mesmo erro eu tirei nota 10. Espero que continue pensando assim pelos próximos dias para não pular de volta nessa panela, optando em sofrer um pouquinho agora em vez de muitão lá na frente.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

E se?

Querida Danuza,

Algumas vezes temos a oportunidade de avaliar o que teria acontecido se tivéssemos feito outra escolha em alguns momentos decisivos de nossa vida. É muito interessante, emocionante até, olharmos o que aconteceu com aquela pessoa que naquele momento lá atrás foi tão importante e fez parte de nossa vida.
Outro dia minha irmã me  perguntou se tudo que escrevo aconteceu comigo e eu achei a pergunta engraçada e pertinente e respondi que esse blog não é uma biografia, é uma reflexão do que vejo, escuto, analiso e tiro minhas conclusões. Aqui conto histórias de pessoas que conheci pessoalmente os através de histórias contadas por amigos. Também fazem parte dessas histórias os livros que li e filmes que me marcaram de alguma forma e até de novelas que assisti.
Acabei de lembrar que usava muito uma frase com meus filhos quando queriam ir para lugares que eu não achava seguro, ou programas que eu não achava adequados para a idades deles. Essa coisa de querer ir para festas, dirigir carro, ir para a casa de amigos sei lá aonde com sei lá quem... Eu dizia assim: Vocês são meus filhos e cuido de vocês para que nada de mal lhes aconteça, mas quando vocês tiverem seus filhos vocês "podem jogar seus filhos no vento", não vou dizer nada, mas ou meus eu tomo conta !!!! Eles ficavam aborrecidíssimos mas não tinha jeito, essa frase era mágica para encerrar essas discussões e eu ouvi em uma novela que se passava no Marrocos.
Mas vou voltar ao assunto que me trouxe a esse texto, e se?
As redes sociais permitem que olhemos para aquele namorado lá da escola secundária e que não foi levado a sério porque era muito avoado e não gostava de estudar e por isso o namoro não foi em frente e o encontramos como diretor de sucesso de uma companhia de seguros, com uma família linda, 5 filhos, 10 netos...
E aquele outro, da faculdade, que foi uma paixão avassaladora, agora mora em uma fazenda no interior e planta verduras sem agrotóxicos, totalmente zen...
E o que quase foi um casamento, agora morando fora, com uma esposa bem gorda, um filho já adulto e várias declarações de amor no FB, ninguém merece!!!!!
Pois é Danuza, e se tivéssemos feito outras escolhas, se tivéssemos casado com um daqueles onde estaríamos agora? Como teria sido a nossa vida? Que filhos teríamos tido? Que emoções teríamos vivido? Que amor teríamos tido? Mas não foi assim e terminamos as relações sem qualquer dó fazendo as escolhas que julgávamos ser as melhores para nós, vivendo a nossa juventude sem preocupações de fazer sofrer o parceiro, apenas buscando o que nos parecia o melhor.
Outro dia passei um susto! Lembrei de um rapaz de quem destrocei o coração há anos atrás e o encontrei no FB. Fiquei feliz quando descobri que ele tinha sobrevivido a mim!!! Construiu uma família linda e parece muito feliz! Fiquei olhando as fotos e os comentários, como se estivesse vendo um filme, fiquei ali por um tempo bisbilhotando a vida dele, avaliando o quanto ele tinha mudado... e todas essas perguntas vieram na minha cabeça.
Acho que nós devemos olhar as histórias por esse ponto de vista também porque sempre nos vemos como as sobreviventes corajosas e vitoriosas de um romance desastrado, mas olhando o FB vale um mea-culpa e um pedido de desculpas mudo e um respiro de alívio por todos aqueles que foram fortes e sobreviveram aos nossos caprichos e términos onde colocamos um ponto final onde poderia ter sido uma vírgula ou um ponto de continuação.
E se?

Preciso falar com você!

Querida Danuza,

- Preciso falar com você!
Gelei só de ouvir essa frase! Já podia imaginar o que viria e o estômago embrulhou. Sempre odiei essa chamada, porque de alguma forma me leva a um momento lá atrás, trazendo uma sensação antecipada de que algo de ruim está prestes a acontecer.
Claro que depende do tom da chamada, mas esse era o tom certo daquela chamada para dar uma má notícia.
Lembro da primeira vez em que ouvi essa frase, Eu estava muito apaixonada e meu coração gelou quando ele me ligou e disse isso e eu fiquei com aquela frase martelando na minha cabeça, sem entender direito, tal era o meu medo de ouvir ele falar que não queria mais para continuar. E eu ali, tão feliz, tão cheia de planos e boas intenções. E agora o que dizer? Fiquei muda e incapaz de raciocinar, sabendo que não havia lógica no seu discurso, mas eu era incapaz de raciocinar, tal o medo que tomou conta de mim.
Apaixonados se tornam burros, isso eu sei com certeza. Deve acontecer um congelamento de sinapses de neurônios, mas o fato é que a paixão aceita coisas inaceitáveis e entende coisas sem nenhum nexo.
E agora você me liga e me diz que quer falar comigo e não diz do que se trata, sabendo claro que isso me deixará ansiosa até a hora do juízo final, que é como eu já me vejo, criando mil motivos para continuar com você.
Penso em ligar e perguntar o que você quer falar comigo, mas não tenho coragem.
Penso em me arrumar, vestir um vestido bem sexy, cabelo perfumado, batom vermelho, para que você se esqueça do que quer falar ao me ver. Faço isso mas nem assim me acalmo. Os minutos não passam. O estômago dói, deve ser fome, mas não consigo comer nada.
Fico aqui pensando em quanto gosto de ficar com você, de dar as mãos, de dançar, de conversar, de sua risada, e fico gelada só de pensar em te perder.
O amor é estranho, dá felicidade e ao mesmo tempo dá medo de perder.
Aguardo você chegar e me preparo para a tal conversa, já sofrendo pro antecipação. Tenho pressentimento que a conversa não vai ser boa.
A ansiedade faz com que eu ande pela casa toda e minha mãe já me perguntou duas vezes o que eu tenho. Se eu falar vai ser pior, vou começar a chorar por antecipação, então digo que não é nada.
Ela desconfia que tem alguma a coisa a ver com você, mas não diz nada, só me olha, enquanto finge que assiste a novela. Meu pai acaba de chegar e também me pergunta se está tudo bem, deve estar estranhando me ver com esse vestido em plena quarta-feira. Me deu até vontade de rir agora, devo estar ridícula com esse vestido de festa dentro de casa, andando de um lado para o outro, indo até a janela de dois em dois minutos.
Volto para o quarto e troco de roupa, coloco uma calça comprida e uma blusinha de malha, fica melhor assim.
O telefone toca e eu pulo da cadeira. É você me pedindo para descer. Mau sinal, não vai subir.
Desço como quem vai a seu próprio velório, já acendendo vela e puxando o terço.
Olho para você e sua carinha linda e penso de novo como vou suportar essa conversa.
Você é rápido e sincero, não dá mais por isso e isso, a culpa, claro, é toda minha e de repente meu coração se acalma, ok, digo eu, nada a declarar ante tantos defeitos e faltas.
Acabou. Sinto um vazio enorme, maior do que eu.
Subo o elevador e entro em casa. Meus pais me olham e minha mãe se levanta e me abraça. Vai passar, ela diz, logo vem outro.
Eu não quero outro, quero ele, eu digo já com a voz embargada e as lágrimas descendo. Meu travesseiro foi meu companheiro fiel e amanheceu todo amarrotado, testemunha das minhas lágrimas.
Lembrando disso alguns anos depois, penso em como eu sofri, e em como foi difícil esquecer dele,
Passou, mas deixou uma marca, e depois desse dia sempre estremeço quando alguém me diz - Preciso falar com você.
Acabo de receber uma mensagem sua, pedindo para descer. Rio comigo mesma e respiro fundo. Onde andará aquele garoto, aquele que partiu meu coração? Não sei, não faço a menor ideia.
Ora bolas, pensando melhor você não será capaz de partir meu coração, talvez um arranhão, mas nada que um chá de frutas silvestres bem quente não resolva.


Pedra de Paciência

Querida Danuza,

Ensaiei diversas vezes voltar a lhe escrever mas não consegui nem abrir o blog. Muita coisa aconteceu nesse tempo, e aqui estou eu novamente, fazendo de você minha Pedra de Paciência.
Assisti a esse filme duas vezes esses últimos meses e em ambas fiquei impactada pela história da afegã, pela força dos costumes  e da cultura, e pela falta de perspectivas.
O que eu faria se estivesse no lugar dela? Teria cuidado do marido em coma correndo todo aquele perigo por um marido que nunca a tinha olhado, nunca tinha conversado com ela, ou beijado? E como os sentimentos podem surgir naquela cultura machista onde as mulheres não tem nenhum valor? Sei que você vai me achar ridícula nas minhas conclusões mas imagino que assim como o amor e a solidariedade conseguem nascer naquele ambiente improvável, assim surgiu a vida nos primeiros seres unicelulares, por um milagre. Pode rir, eu não ligo. E penso em como esse sentimento, o amor, pode surgir mesmo não sendo ensinado ou valorizado.
Quanto à Pedra da Paciência é uma forma de nos libertarmos das dúvidas, dos erros, dos medos, das culpas, das angústias, contando a uma pedra, todos os infortúnios, até a hora em que ela se parte por não suportar mais e assim o fazendo leva em sua explosão tudo o que lhe foi contado em segredo.
Acredito que funciona como uma terapia, falando e contando sem pudor, os segredos vão sendo libertos e perdoados e a liberdade chega junto com o perdão a si próprio. Lindo isso não? É uma forma de sobreviver sem enlouquecer.
É um filme que vale muito à pena principalmente se comparamos nossa vida à das afegãs.
Há duas semanas atrás perdi uma grande amiga, que tinha um câncer e tentou viver até o último dia se submetendo a todos os tratamentos que estavam à disposição. Para mim foi uma lição de vida e de morte. Foi a primeira vez que acompanhei de perto uma amiga nessa situação e posso lhe dizer que o sofrimento é imenso. Eu lhe fazia visitas constantes e conversávamos muito, durante horas, ela deitada na cama e eu sentada em uma cadeira de madeira, de espaldar alto, encostada na beira da cama. Ela me contava as histórias de sua infância, adolescência, família, amores, marido, filho, viagens, amigos e hoje eu penso que éramos Pedras de Paciência uma da outra, contando nossos segredos e fazendo nossos comentários nem sempre politicamente corretos. Sinto muita falta dela e de nossas conversas. Ela me deixou um presente, na forma de uma promessa, de acompanhar o crescimento e formação de seu filho único. Toda vez que ela me fazia prometer que cuidaria de seu filho eu dizia que ela tinha achado pouco eu criar dois meninos sozinha e ela ainda queria que eu cuidasse do dela. Ela repetia, você prometeu! Prometi e vou cuidar, acompanhar e ajudar a formá-lo um homem equilibrado e preparado para a vida.
A vida não é justa, eu sei. Ela queria viver, sair daquela cama, viajar, e todo dia ela tinha essa esperança.
Cabe a mim agora não esquecer nunca que a vida com saúde é um presente divino e deve ser reverenciada todos os minutos.
Eu sei que essa tristeza vai passar e sei também que vou cumprir minha promessa feita à ela. Só não sei se algum dia encontrarei outra Pedra de Paciência tão amiga e boa como ela.