quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Save the date

Querida Danuza,

Estamos na era do "Save the date" para todo o tipo de evento... casamento, batizado, aniversário, bodas de ouro, de prata, de diamante, e agora recebi um de nascimento!!!
Nunca tinha recebido um convite para visitar um bebê que nasceria dali a 15 dias! Fiquei pasma, surpresa, confusa, perdida, não sabia o que pensar.
Recebi pelo Whatsapp o convite para fazer a visita no hospital, na data tal, e fiquei pensando em como tudo mudou e eu não percebi. E se acontecer alguma coisa imprevista? Se tiver algum problema, como fica?
Essa exposição de vida me deixa apavorada, pensando em como hoje tudo é para ser fotografado, filmado e mostrado para xmil pessoas, que devem ser testemunhas de tanta felicidade. Hoje o lema é: Não basta ser feliz, é preciso mostrar ao mundo que se é feliz!
Estendendo a forma de divulgação de tudo o que acontece na vida para todos os seus amigos do FB, Instagran, Twitter etc, estou pensando que logo, logo receberemos o "Save the date" para velórios e funerais!!!! Imagine a cena, você recebendo uma mensagem bem bonitinha, formatada, com o laço negro, avisando que dia x às y horas será o velório de Fulano de Tal, que já se encontra na UTI e terá os aparelhos desligados. Surreal!!!! Concordo, mas não impossível!
No momento atual tudo é possível, e de tão repetido passa a ser normal.
Acredito que as separações também serão divulgadas, avisando que a partir de agora os cônjuges estão livres para experimentar novos parceiros. Serão divulgadas fotos antigas com um X em cima, tornando bastante claro que aquele par já era e que está partindo para outra situação.
E aí, nós devemos curtir? Comentar que já imaginava que isso fosse acontecer porque ele/ela já tinha outro/outra? Ou que estamos sentidos com essa separação e esperamos que o casal volte?
Estou confusa, preciso atualizar meu caderninho de etiqueta!!!!!!


terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Assistindo "Um trem para Lisboa"

Querida Danuza,

Espero que você já tenha assistido o filme "Um trem para Lisboa", e se ainda não assistiu, assista.
Estou aqui pensando se devo ou não te contar a história do filme, e acabo de resolver que não devo; o filme é lindo demais e não merece que eu estrague a sua surpresa.
Vou só comentar aqui uma passagem que me deixou emocionada e pensativa.
O protagonista do filme, que é um professor solitário, se encontra parado na estação esperando o trem para voltar para a sua cidade, quando a "mocinha" que tinha se apaixonado por ele pergunta:
- Por que você não fica?
E ele fica parado olhando para ela, entendendo que aquela resposta poderia mudar a vida dele... e ela arriscando mudar sua vida também, talvez viver um grande amor.
Penso na coragem de se fazer determinadas perguntas, quando se sabe que a resposta pode dar um novo rumo à vida, pode trazer um sofrimento, pode corrigir erros de um relacionamento, ou pode encerrar um.
Você já pensou nisso? Quantas vezes a pergunta fica presa sem que tenhamos a coragem de falar só por medo de ouvir a resposta do outro?
Voltando ao filme, por que ele não perguntou a ela se desejava que ele ficasse? Imagino que ele não sabia como dizer isso porque de antemão achava que era muito chato (segundo sua ex-mulher) e aceitava isso como verdade absoluta, não deixando espaço para outra chance.
Quantas mães ficam caladas com medo de perguntar aos filhos se estão usando drogas ou de perguntar se estão se protegendo em suas relações com sexo, só por medo de ouvir a resposta.
Quantas perguntas ficam caladas quando um dos parceiros desconfia de traição mas prefere não perguntar para não dar vez à uma resposta?
Nossos medos às vezes são maiores que nós e nos prendem até que consigamos fazer as perguntas que vão nos libertar.
Lembrei agora de um caso muito bobo, mas bem dentro dessa questão.
Uma amiga sempre comprava iogurtes para o filho e em poucos dias não tinha mais nenhum na geladeira. Ela não tinha coragem de perguntar para a babá quem estava tomando os iogurtes com medo que ela se ofendesse e fosse embora. E ficava com aquela situação a aborrecendo semana após semana. Até que um dia, por algum motivo acumulado mandou a babá embora. Logo descobriu que quem tomava os iogurtes do garotinho era a cozinheira!!!!!
Não era melhor ter tido a coragem de perguntar?