Querida Danuza,
- Preciso falar com você!
Gelei só de ouvir essa frase! Já podia imaginar o que viria e o estômago embrulhou. Sempre odiei essa chamada, porque de alguma forma me leva a um momento lá atrás, trazendo uma sensação antecipada de que algo de ruim está prestes a acontecer.
Claro que depende do tom da chamada, mas esse era o tom certo daquela chamada para dar uma má notícia.
Lembro da primeira vez em que ouvi essa frase, Eu estava muito apaixonada e meu coração gelou quando ele me ligou e disse isso e eu fiquei com aquela frase martelando na minha cabeça, sem entender direito, tal era o meu medo de ouvir ele falar que não queria mais para continuar. E eu ali, tão feliz, tão cheia de planos e boas intenções. E agora o que dizer? Fiquei muda e incapaz de raciocinar, sabendo que não havia lógica no seu discurso, mas eu era incapaz de raciocinar, tal o medo que tomou conta de mim.
Apaixonados se tornam burros, isso eu sei com certeza. Deve acontecer um congelamento de sinapses de neurônios, mas o fato é que a paixão aceita coisas inaceitáveis e entende coisas sem nenhum nexo.
E agora você me liga e me diz que quer falar comigo e não diz do que se trata, sabendo claro que isso me deixará ansiosa até a hora do juízo final, que é como eu já me vejo, criando mil motivos para continuar com você.
Penso em ligar e perguntar o que você quer falar comigo, mas não tenho coragem.
Penso em me arrumar, vestir um vestido bem sexy, cabelo perfumado, batom vermelho, para que você se esqueça do que quer falar ao me ver. Faço isso mas nem assim me acalmo. Os minutos não passam. O estômago dói, deve ser fome, mas não consigo comer nada.
Fico aqui pensando em quanto gosto de ficar com você, de dar as mãos, de dançar, de conversar, de sua risada, e fico gelada só de pensar em te perder.
O amor é estranho, dá felicidade e ao mesmo tempo dá medo de perder.
Aguardo você chegar e me preparo para a tal conversa, já sofrendo pro antecipação. Tenho pressentimento que a conversa não vai ser boa.
A ansiedade faz com que eu ande pela casa toda e minha mãe já me perguntou duas vezes o que eu tenho. Se eu falar vai ser pior, vou começar a chorar por antecipação, então digo que não é nada.
Ela desconfia que tem alguma a coisa a ver com você, mas não diz nada, só me olha, enquanto finge que assiste a novela. Meu pai acaba de chegar e também me pergunta se está tudo bem, deve estar estranhando me ver com esse vestido em plena quarta-feira. Me deu até vontade de rir agora, devo estar ridícula com esse vestido de festa dentro de casa, andando de um lado para o outro, indo até a janela de dois em dois minutos.
Volto para o quarto e troco de roupa, coloco uma calça comprida e uma blusinha de malha, fica melhor assim.
O telefone toca e eu pulo da cadeira. É você me pedindo para descer. Mau sinal, não vai subir.
Desço como quem vai a seu próprio velório, já acendendo vela e puxando o terço.
Olho para você e sua carinha linda e penso de novo como vou suportar essa conversa.
Você é rápido e sincero, não dá mais por isso e isso, a culpa, claro, é toda minha e de repente meu coração se acalma, ok, digo eu, nada a declarar ante tantos defeitos e faltas.
Acabou. Sinto um vazio enorme, maior do que eu.
Subo o elevador e entro em casa. Meus pais me olham e minha mãe se levanta e me abraça. Vai passar, ela diz, logo vem outro.
Eu não quero outro, quero ele, eu digo já com a voz embargada e as lágrimas descendo. Meu travesseiro foi meu companheiro fiel e amanheceu todo amarrotado, testemunha das minhas lágrimas.
Lembrando disso alguns anos depois, penso em como eu sofri, e em como foi difícil esquecer dele,
Passou, mas deixou uma marca, e depois desse dia sempre estremeço quando alguém me diz - Preciso falar com você.
Acabo de receber uma mensagem sua, pedindo para descer. Rio comigo mesma e respiro fundo. Onde andará aquele garoto, aquele que partiu meu coração? Não sei, não faço a menor ideia.
Ora bolas, pensando melhor você não será capaz de partir meu coração, talvez um arranhão, mas nada que um chá de frutas silvestres bem quente não resolva.
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