segunda-feira, 25 de abril de 2016

Pedra de Paciência

Querida Danuza,

Ensaiei diversas vezes voltar a lhe escrever mas não consegui nem abrir o blog. Muita coisa aconteceu nesse tempo, e aqui estou eu novamente, fazendo de você minha Pedra de Paciência.
Assisti a esse filme duas vezes esses últimos meses e em ambas fiquei impactada pela história da afegã, pela força dos costumes  e da cultura, e pela falta de perspectivas.
O que eu faria se estivesse no lugar dela? Teria cuidado do marido em coma correndo todo aquele perigo por um marido que nunca a tinha olhado, nunca tinha conversado com ela, ou beijado? E como os sentimentos podem surgir naquela cultura machista onde as mulheres não tem nenhum valor? Sei que você vai me achar ridícula nas minhas conclusões mas imagino que assim como o amor e a solidariedade conseguem nascer naquele ambiente improvável, assim surgiu a vida nos primeiros seres unicelulares, por um milagre. Pode rir, eu não ligo. E penso em como esse sentimento, o amor, pode surgir mesmo não sendo ensinado ou valorizado.
Quanto à Pedra da Paciência é uma forma de nos libertarmos das dúvidas, dos erros, dos medos, das culpas, das angústias, contando a uma pedra, todos os infortúnios, até a hora em que ela se parte por não suportar mais e assim o fazendo leva em sua explosão tudo o que lhe foi contado em segredo.
Acredito que funciona como uma terapia, falando e contando sem pudor, os segredos vão sendo libertos e perdoados e a liberdade chega junto com o perdão a si próprio. Lindo isso não? É uma forma de sobreviver sem enlouquecer.
É um filme que vale muito à pena principalmente se comparamos nossa vida à das afegãs.
Há duas semanas atrás perdi uma grande amiga, que tinha um câncer e tentou viver até o último dia se submetendo a todos os tratamentos que estavam à disposição. Para mim foi uma lição de vida e de morte. Foi a primeira vez que acompanhei de perto uma amiga nessa situação e posso lhe dizer que o sofrimento é imenso. Eu lhe fazia visitas constantes e conversávamos muito, durante horas, ela deitada na cama e eu sentada em uma cadeira de madeira, de espaldar alto, encostada na beira da cama. Ela me contava as histórias de sua infância, adolescência, família, amores, marido, filho, viagens, amigos e hoje eu penso que éramos Pedras de Paciência uma da outra, contando nossos segredos e fazendo nossos comentários nem sempre politicamente corretos. Sinto muita falta dela e de nossas conversas. Ela me deixou um presente, na forma de uma promessa, de acompanhar o crescimento e formação de seu filho único. Toda vez que ela me fazia prometer que cuidaria de seu filho eu dizia que ela tinha achado pouco eu criar dois meninos sozinha e ela ainda queria que eu cuidasse do dela. Ela repetia, você prometeu! Prometi e vou cuidar, acompanhar e ajudar a formá-lo um homem equilibrado e preparado para a vida.
A vida não é justa, eu sei. Ela queria viver, sair daquela cama, viajar, e todo dia ela tinha essa esperança.
Cabe a mim agora não esquecer nunca que a vida com saúde é um presente divino e deve ser reverenciada todos os minutos.
Eu sei que essa tristeza vai passar e sei também que vou cumprir minha promessa feita à ela. Só não sei se algum dia encontrarei outra Pedra de Paciência tão amiga e boa como ela.

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