quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Luta de classes sociais

Querida Danuza,

Engraçado como uma palavra às vezes nos remete a uma situação da nossa cultura!
Decidi ir hoje à tarde à Prefeitura, que fica no centro da cidade, para resolver um problema.
Deixei o carro no estacionamento e fui andando pelas calçadas antigas e desniveladas, Fui bem devagar para não cair do salto que estava completamente desapropriado para o percurso.
Fui observando alguns casarões que estavam em reforma, outros bem estragados em ruínas, e fiquei um bom tempo na porta de uma pequena igreja onde estava acontecendo uma missa.
Ao sair fiquei atrás de 2 moças jovens, negras, uma com cabelos alisados, outra com cabelos curtos e crespos em cachos, roupas justas, uma bem gordinha e falante e a outra mais alta que escutava e concordava.
A primeira coisa que ouvi foi: "Imagine que a barona não gostou da minha comida!".
Entendi tudo de primeira. Ela estava se referindo à patroa, a Barona, e ela devia ser a empregada doméstica, que fez a comida e recebeu uma chamada da patroa. Claro que ela não sabia que o feminino de barão, como se fala quando se quer se referir a pessoas ricas e posudas, era baronesa, e falou de forma tão segura que até tive vontade de adotar o mesmo feminino.
Continuou dizendo: Os menino tudo gostaram, só ela que é toda metida a especial achou salgada! no seu português sem qualquer concordância verbal.
A outra garota só concordava com a amiga balançando a cabeça. E eu colada nelas ouvindo a conversa interessada nessa briga de classes.
- A barona bota defeito em tudo que eu faço, o marido até que é bonzinho, mas eu não vou aguentar isso não! Reclama, mas não sabe fazer nada, nem o dever do filho pequeno sabe fazer, mas ela vai ver, se reclamar de novo vou deixar ela falando sozinha!
A outra disse : Não sei como você aguenta  essa barona, se fosse eu já tinha ido embora e deixado ela sozinha.
- Só estou esperando meu décimo e vou pedir minhas contas, vc vai ver!
Atravessaram a rua e seguiram falando da patroa e suas chatices.
Atravessei para o outro lado pensando em como é difícil essa relação de patroa e empregada, onde os sentimentos mais verdadeiros afloram com tanta facilidade.
A que emprega, precisa dos serviços e se acha no direito de exigir e reclamar e a que se emprega precisa do dinheiro e não acha que deve ser reclamada nem exigida. Uma se acha mal servida e a outra se acha explorada.
Minha observação é que enquanto a educação não nivela as pessoas esse sentimento de barona e escrava fica no nosso sobconsciente, resultado da nossa história e se traduz nas nossas ações dando fôlego a essa guerra de classes.
E me pergunto o que eu posso fazer para contribuir para que isso aconteça?


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